Quando um território aprende a inovar junto
Nos últimos anos, uma expressão começou a aparecer cada vez mais nas discussões sobre desenvolvimento regional, Ecossistema Local de Inovação (ELI). O termo pode parecer técnico à primeira vista, mas a ideia por trás dele é simples. Um ecossistema de inovação é o conjunto de pessoas, instituições e empresas que, conectadas, criam um ambiente favorável para gerar novas soluções, empreendimentos inovadores e oportunidades de desenvolvimento.
Em um Ecossistema Local de Inovação, diferentes atores do território passam a trabalhar de forma mais integrada. Empresas, universidades, poder público e organizações da sociedade civil colaboram para fortalecer a capacidade de inovar da região. Essa lógica segue o modelo conhecido como hélice quádrupla, em que esses quatro grupos atuam juntos para transformar conhecimento em desenvolvimento econômico e social.
Mas um ecossistema nem sempre surge espontaneamente. Ele precisa ser compreendido, organizado e estruturado. Foi esse o trabalho realizado em Rio do Sul, no Alto Vale do Itajaí, a partir da aplicação, com apoio do Sebrae, da metodologia de estruturação de ecossistemas desenvolvida pela Fundação CERTI.
A metodologia parte de um princípio importante, antes de pensar em inovação, é preciso entender o território, pela visão de quem vive nele. O processo começa com o mapeamento dos atores que já atuam na região, empresas, instituições de ensino, entidades, empreendedores e lideranças. Em seguida, é realizado um diagnóstico para identificar as vocações econômicas locais, os pontos fortes do território e também as lacunas que precisam ser superadas.
A partir desse diagnóstico, são definidas áreas estratégicas que orientam o desenvolvimento do ecossistema. Em Rio do Sul, por exemplo, alguns setores se destacam naturalmente pela relevância na economia regional,bem como potencial de demanda e geração de inovação, como o têxtil, o eletromecânico e a tecnologia da informação e comunicação (TIC). Esses setores ajudam a orientar iniciativas e estratégias voltadas para fortalecer a inovação dentro das empresas e também estimular o surgimento de novos negócios.
Um ponto fundamental desse processo é a criação de uma governança do ecossistema. Diferente do que acontece em uma empresa, onde há hierarquia e decisões centralizadas, a governança de um ecossistema funciona de forma colaborativa. Não existe um “dono” do ecossistema. As decisões são construídas coletivamente e as organizações participam de forma voluntária.
Por isso, a governança territorial tem uma lógica muito diferente da governança corporativa. Em uma empresa, metas, recursos e responsabilidades estão sob controle direto da organização. Já em um ecossistema, o papel da governança é outro: articular e viabilizar iniciativas, conectar atores e criar condições para que projetos relevantes aconteçam no território. Em vez de executar tudo diretamente, a governança atua como facilitadora de conexões e oportunidades.
Para transformar estratégia em ação, o Ecossistema de Inovação de Rio do Sul estruturou Grupos de Trabalho (GTs) que tratam dos principais temas estratégicos do território. Esses grupos reúnem representantes de empresas, instituições e lideranças para discutir desafios e desenvolver iniciativas concretas.
Entre os temas que vêm sendo trabalhados estão o fortalecimento da governança do ecossistema, a integração com médias e grandes empresas, o desenvolvimento da jornada do empreendedor, a formação de talentos e a comunicação estratégica do ecossistema. Essas frentes ajudam a transformar ideias em ações práticas, conectando empresas, empreendedores e instituições em torno de objetivos comuns.
Outro ponto importante é a construção de uma narrativa territorial clara. Iniciativas de comunicação e posicionamento ajudam a mostrar que inovação também acontece no interior e que regiões como o Alto Vale possuem empresas, talentos e histórias relevantes que merecem visibilidade. Valorizar casos de inovação da região e fortalecer a identidade do território também faz parte do trabalho do ecossistema.
Um dos maiores aprendizados ao trabalhar com ecossistemas é perceber que muitas iniciativas já existem dentro de um território. Empresas inovam, universidades pesquisam, empreendedores criam novos negócios e instituições promovem programas de desenvolvimento. O desafio muitas vezes não é criar algo completamente novo, mas conectar o que já existe e alinhar esforços em torno de uma estratégia comum.
Quando isso acontece, surgem novas oportunidades para o território, mais inovação nas empresas, surgimento de startups e empresas inovadoras, desenvolvimento de talentos e maior competitividade regional.
Experiências ao redor do mundo mostram que regiões inovadoras têm algo em comum: cooperação estruturada entre diferentes atores. Ecossistemas fortes não surgem por acaso. Eles são resultado de articulação, método e continuidade.
O movimento que vem sendo construído em Rio do Sul mostra que cidades fora dos grandes centros também podem desenvolver ambientes inovadores quando existe organização, liderança local e colaboração entre instituições.
Para quem quer conhecer melhor as iniciativas em andamento ou contribuir com o desenvolvimento da inovação no Alto Vale, os Grupos de Trabalho do Ecossistema de Inovação de Rio do Sul são portas de entrada importantes. Empresas, instituições e lideranças que desejam participar podem se aproximar da governança e conhecer as frentes de atuação que estão sendo desenvolvidas.
No fim das contas, a inovação de um território não acontece apenas dentro das empresas. Ela acontece quando um território inteiro decide trabalhar junto para construir o seu futuro.
